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De repente descubro: Grávida de 4 meses, sem planejamento e cuidado...Como foi minha gestação? Acompanhem!

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Há tempos planejo contar a minha experiência com a maternidade, resisti por não achar que servisse de exemplo, mas como nem tudo na vida é pensado e planejado hoje resolvi escrever.

Fui diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 25 anos de idade, a forma foi bem traumática, fui direto para o coma diabético por cetoacidose, isso tudo me despertou um senso de responsabilidade que eu nem sabia existir em mim. 

Resolvi conviver da melhor forma possível com a minha nova companheira inseparável (Diabetes) e seguir o primeiro e mais valioso conselho que recebi de uma médica ainda durante a minha internação, ela disse para eu me informar sobre a minha doença e que isso faria toda a diferença em minha vida.

Quando sai de lá busquei seguir esse conselho à risca, busquei sites, li tudo o que havia disponível na época, fui a congressos da ADJ e tudo mais, e em um desses congressos assisti a uma palestra que falava sobre diabetes e gravidez, não me lembro o nome da palestrante, mas lembro bem das informações, ela mostrou dados e disse que gravidez segura em DM1 era quase utopia, que era preciso 3 anos de um bom controle para ter uma gestação segura , falou dos riscos de má formação, de morte súbita, do alto índice de morbidade para mãe e filho e me deixou muito assustada, decidi que não correr esse risco e ponto final. Muito tempo antes descobri ter SOP (síndrome do ovário policístico) e prolactinemia (excesso de produção do hormônio Prolactina), dois problemas que comprometem a fertilidade, estava decidido, apesar do grande desejo de ser mãe que esse era um sonho impossível. 

Segui a vida, em 2009 conheci o homem que seria o meu companheiro pra vida, numa conversa franca e um tanto difícil, lhe expliquei que não queria ter filhos pois os riscos e as dificuldades seriam grandes, apesar de muito apaixonada o deixei livre para escolher outra pessoa, caso seu desejo de ser pai fosse prioridade.Ele disse que esta decisão cabia a mim e que apoiaria. Nos casamos em 2012 e em 2014 voltei a tomar o medicamento para a prolactinemia, até então tomava anticoncepcional, mas vez ou outra esquecia de tomar a pílula, um pouco da falta de assiduidade se dava por saber que com a prolactina em níveis altos impede a ovulação. 

Bem, em agosto/2014 voltei a tomar o medicamento, até aí sem novidades, mas eis que em Janeiro de 2015 notei algumas diferenças em meu corpo, marquei consulta com minha ginecologista, que sempre me incentivou a ter um bebê, dizendo que muitas diabéticas têm filhos saudáveis e tal,não desconfiei de nada, fui porque já estava na hora de fazer os exames periódicos.

Enfim no dia da consulta me olhando no espelho achei a cintura menos evidente, pensei: 

-Será? Mas relaxei, acabei de me arrumar e fui. 

Chegando lá, durante o exame, ela novamente me perguntou se eu não teria mesmo filhos, e disse que eu sentiria falta quando estivesse com uns 45 ou 50 anos, eu brinquei:

-Ah, doutora aí já será tarde!

 Ela acabou de me examinar e disse:

-Você está grávida!!!

Fiquei assustadíssima!Como??? Não senti nada, e a glicada estava em 8,7%...Como???Se eu não tinha feito nada do que era preciso para ter uma gestação segura?Com 12 anos de DM1 com um controle um tanto aquém do ideal??? 

A médica ainda ressaltou:

-Você deve estar de uns 4 meses!!

 Me senti uma inconsequente...

Quis contar primeiro para o meu marido, que ficou radiante com a novidade. Isso tudo numa sexta-feira, na segunda fiz um ultrassom, 20 semanas de gestação, um menino, um misto de alegria e preocupação...Como eu poderia estar grávida de 5 meses e não ter desconfiado e não ter sentido nada????

Um pouco de tranquilidade por que estava tudo bem com o pequeno, meu filhote apesar de toda a falta de cuidados crescia bem e saudável segundo o médico que fez essa primeira ultrassonografia. 

Voltei uma 1 semana depois com a ginecologista que me avisou que não estava familiarizada com gestação de diabética, procurei um especialista em gestação de alto-risco do convênio e no posto de saúde, já que meu convênio estava iniciando e eu não teria assistência para o parto.

Iniciou-se uma vida de ainda mais dextros, cuidado redobrado com alimentação, tensão e felicidade sem limites. Minha endócrino avisou que poderia continuar com o tratamento com Lantus e Novorapid, mas que nos hospitais o protocolo era NPH e Regular e por isso achou melhor voltar pra NPH e manter a Novorapid já que se eu precisasse de atendimento de urgência seria este o procedimento nos hospitais. Muitas hipos noturnas, um susto ou outro e a barriga crescendo, um sentimento de estar completa, de nunca mais estar sozinha, uma amor que crescia, um amor sem explicação, um amor que justificava todos os cuidados. Afinal estava ali, dentro de mim a prova de que o diabetes não poderia me impedir de realizar nenhum sonho. Todo esforço seria recompensado no dia que eu pudesse ver aquele rostinho sonhado.


Com 27 semanas veio um descontrole nos dextros e em uma consulta com a médica do posto ela me encaminhou para o hospital para fazer um perfil glicêmico, no hospital veio a informação que teria que ficar internada por 24h e a descoberta do motivo do descontrole, uma infecção urinária.Foram 5 dias de internação, sai mais tranquila e com a glicemia mais controlada. Exames e mais exames, tudo ia bem comigo e com bebê, mínimo de 8 dextros por dia, lanche ás 3h da madrugada para evitar hipo, alimentação leve de 3 em 3 horas, caminhadas leves e cuidado para não ganhar muito peso. 




E assim seguia...

Minha endócrino é a favor de antecipar o parto, pois segundo ela o ambiente de alto risco de uma mãe diabética não é bom para o bebê, para ela a partir das 36 semanas qualquer hora pode ser a hora. O médico do convênio agendou o parto para 38 semanas e 4 dias.

Com 36 semanas e 4 dias nova consulta com a obstetra do posto que disse estar tudo bem com o bebê e comigo, que ele estava encaixado e tudo indicava que poderia até nascer de parto normal, mas pediu que eu fosse ao hospital fazer acompanhamento, chegando lá o obstetra de plantão achou melhor me internar para acompanhar a glicemia e o desenvolvimento do bebê, isso em uma quinta-feira, na sexta o Dr José Luiz me avaliou, aproveitei para pedir que ele fizesse o parto logo, já que no sábado completaria 37 semanas, ele foi enfático em dizer que não, que 37 semanas poderia ser cedo, pediu cardiotoco diário e uma ultrassonografia para segunda-feira, deixou claro que eu só sairia dali depois do nascimento do meu pequeno.

Chegou a esperada segunda-feira, ultrassom normal, bebê em atividade, o líquido aminiótico um pouco aumentado, mas nada que inspirasse maiores cuidados. A tarde durante o cardiotoco a surpresa: O  bebê estava entrando em sofrimento. Chamaram o Dr. José Luiz que chegou todo animado em meu quarto e disse:

-Ana Paula é hoje!!!!! Vamos fazer seu parto!A  partir de agora você está em jejum, ás 20h as meninas virão te buscar!!!! 

Não sei explicar o que senti naquele momento, um misto de medo e alegria, ansiedade por ver meu filho...Como seria? Precisaria de UTI ou poderia sair comigo? Tantas coisas na cabeça...

Enfim as 20h30h no final da visita vieram as enfermeiras me buscar, tudo pronto, faltava pouco para eu ter meu milagre em meus braços. 




Foi então às 21:01h do dia 29 de junho de 2015 que o Murilo nasceu, com 37 semanas e 2 dias, 50 cm e 3.450kg de parto cesárea.Ouvir o seu choro foi a maior emoção da minha vida, ver aquele rostinho, aqueles olhinhos me olhando como que dizendo:

 -Sou eu que não te deixava dormir, que fiz seu corpo mudar,  que vim para mudar de vez a sua vida e te ensinar que nada pode te impedir de ser feliz, que diabetes não pode te impedir de realizar nenhum sonho...




Foi gratificante!


Murilo nasceu com hipoglicemia, o que já era esperado, não foi para o quarto comigo, ficou no berçário sendo acompanhado e monitorado durante 3 dias para normalizar a glicemia. Surgiu a icterícia, mais 6 dias de fototerapia, ao final de 9 dias eu podia trazer meu milagre para casa e experimentar mais plenamente a mais incrível experiência de minha vida.




Durante a gravideź consegui baixar a glicada para 7% sei que não é o ideal, mas fico imensamente feliz por ter dado tudo certo, o Murilo nasceu bem, com peso dentro do esperado, sou imensamente grata à Deus que permitiu que eu realizasse esse sonho.




Hoje ele tem 1 ano e 10 meses e confesso que tenho vontade de ir para o segundo, agora com mais responsabilidade,estou tentando ajustar a glicemia e outras coisinhas mais para quem sabe até o final do ano encomendar o segundinho.Quem sabe?